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Hérnia de Disco Lombar: o que é, sintomas e quando operar

Atualizado: há 5 dias

A hérnia de disco lombar figura entre as causas mais frequentes de dor nas costas e na perna. O que a evidência científica mostra — e que ainda surpreende muita gente — é que a maioria dos casos melhora sem cirurgia. Conhecer o que acontece na sua coluna permite decisões mais seguras e menos ansiosas.

Por Dr. Normando Guedes — Neurocirurgião, especialista em coluna e dor crônica — CRM-GO 31728 — RQE 17078. Atualizado em 22 de junho de 2026.

Principais conclusões

  1. A hérnia de disco lombar é uma das principais causas de dor nas costas e na perna (ciática).

  2. Ter hérnia na ressonância nem sempre significa precisar de cirurgia: alterações nos discos são comuns mesmo em pessoas sem dor.

  3. Na maioria dos casos, a hérnia melhora sem cirurgia, e os tipos maiores (extrusão e sequestro) têm maior chance de regressão espontânea.

  4. O tratamento conservador (fisioterapia, analgesia e reabilitação) costuma ser a primeira escolha; a cirurgia é indicada em casos específicos.

  5. Sinais de alarme como dificuldade para urinar, dormência na região genital ou fraqueza progressiva nas pernas exigem atendimento de emergência imediato.

O que é a hérnia de disco lombar?

A hérnia de disco lombar ocorre quando o núcleo gelatinoso de um disco intervertebral — a estrutura que funciona como amortecedor entre as vértebras — ultrapassa sua posição habitual e passa a comprimir estruturas vizinhas, sobretudo as raízes nervosas.

O deslocamento do disco é classificado em graus:

  • Abaulamento: o disco se projeta levemente para fora, sem romper a camada externa.

  • Protrusão: o núcleo empurra a camada externa, mas ainda está contido.

  • Extrusão: o material do disco rompe a camada externa e sai para o canal vertebral.

  • Sequestro: um fragmento se solta completamente e fica livre no canal.

Esse detalhe tem implicação direta no prognóstico: quanto mais avançado o tipo, maior a chance de regressão espontânea (redução natural do tamanho da hérnia). [1]

Por que a hérnia causa dor na perna? A ciática explicada

Quando o disco herniado comprime uma raiz nervosa, a dor não fica restrita às costas — ela percorre o trajeto daquele nervo.

Essa dor irradiada recebe o nome de ciática (ou radiculopatia lombar). Dependendo de qual raiz está comprometida, o paciente sente dor na nádega, na coxa, na panturrilha ou no pé.

Outros sintomas que podem acompanhar a ciática:

  • Formigamento ou dormência na perna ou no pé.

  • Sensação de choque ou queimação no trajeto do nervo.

  • Fraqueza muscular na perna afetada.

  • Piora da dor ao sentar, tossir ou espirrar.

A hérnia pode diminuir sozinha?

Sim — e essa talvez seja a informação mais relevante para quem acaba de receber esse diagnóstico.

Uma revisão sistemática demonstrou que a hérnia pode regredir sem cirurgia, com probabilidades que variam conforme o tipo: abaulamento 13%, protrusão 41%, extrusão 70% e sequestro 96%. [1]

As hérnias maiores — extrusão e sequestro — são justamente as que têm maior chance de regressão espontânea. O tempo varia de semanas a meses, e a melhora da imagem nem sempre coincide exatamente com o alívio dos sintomas, mas a correlação é positiva.

A ressonância mostrando hérnia significa que preciso operar?

Não necessariamente. Esse é um dos equívocos mais comuns sobre o tema.

Alterações discais são frequentes em pessoas completamente sem dor. Uma revisão sistemática com voluntários assintomáticos encontrou degeneração discal em 37% daqueles com 20 anos e em 96% dos que tinham 80 anos. [2]

O médico avalia o conjunto: sintomas relatados, exame físico e resultado da imagem. A ressonância isolada não define o tratamento.

Cirurgia ou tratamento conservador: qual é melhor?

Na maioria dos casos, a primeira abordagem recomendada é o tratamento conservador — fisioterapia, analgesia, reabilitação e acompanhamento médico.

O estudo SPORT, um dos maiores já conduzidos sobre o tema, acompanhou pacientes por oito anos e mostrou que tanto a cirurgia quanto o tratamento conservador levam à melhora dos sintomas. A cirurgia proporciona alívio mais rápido, mas os resultados a longo prazo são semelhantes para boa parte dos pacientes. [3]

Quando a ciática persiste por 4 a 12 meses sem resposta ao tratamento conservador, a microdiscectomia — procedimento minimamente invasivo para remoção do fragmento herniado — pode acelerar o alívio da dor. [4]

A decisão é sempre individualizada e construída em conjunto pelo médico e pelo paciente.

Quando a cirurgia é indicada?

A cirurgia pode ser considerada em situações específicas:

  • Ciática intensa que não melhora após meses de tratamento conservador adequado.

  • Fraqueza muscular progressiva na perna.

  • Comprometimento significativo da qualidade de vida apesar do tratamento.

  • Sinais de alarme que configuram emergência (veja abaixo).

Sinais de alarme: quando ir à emergência imediatamente

A síndrome da cauda equina — compressão grave das raízes nervosas na base da coluna — é uma emergência neurocirúrgica. [5]

Procure atendimento de emergência imediatamente se surgir qualquer um destes sinais:

  • Dormência ou anestesia em sela (região genital, perineal e interna das coxas).

  • Dificuldade para urinar ou incontinência urinária (perda involuntária de urina).

  • Incontinência fecal (perda involuntária de fezes).

  • Fraqueza súbita e progressiva nas duas pernas.

Esses sintomas exigem avaliação urgente e, possivelmente, cirurgia imediata para evitar sequelas permanentes. [5]

Perguntas frequentes

A hérnia de disco lombar some completamente?

A hérnia pode regredir espontaneamente na maioria dos casos, sobretudo nos tipos extrusão e sequestro, com taxas de até 96% em estudos de imagem. [1] Isso não significa que toda hérnia desaparece por completo nem que os sintomas somem de imediato.

Quanto tempo leva para a hérnia de disco lombar melhorar sem cirurgia?

O tempo varia de semanas a meses, conforme o tipo de hérnia, a intensidade dos sintomas e a resposta individual ao tratamento conservador. Não existe prazo fixo; o acompanhamento médico é indispensável para monitorar a evolução.

Posso fazer exercícios com hérnia de disco lombar?

De modo geral, a movimentação orientada integra o processo de recuperação, mas o tipo e a intensidade dos exercícios devem ser definidos pelo médico ou fisioterapeuta para cada caso. Exercícios inadequados podem agravar os sintomas.

Toda dor na perna é ciática por hérnia de disco?

Não. A dor irradiada pela perna pode ter diversas origens, como estenose do canal vertebral, síndrome do piriforme ou neuropatias periféricas. O diagnóstico precisa ser confirmado pelo médico com avaliação clínica e exames.

Referências

  1. Chiu CC, Chuang TY, Chang KH, Wu CH, Lin PW, Hsu WY. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Clin Rehabil. 2015;29(2):184-195. doi:10.1177/0269215514540919. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0269215514540919

  2. Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811-816. doi:10.3174/ajnr.A4173. Disponível em: https://www.ajnr.org/content/36/4/811

  3. Lurie JD, Tosteson TD, Tosteson AN, et al. Surgical versus nonoperative treatment for lumbar disc herniation: eight-year results for the Spine Patient Outcomes Research Trial SPORT. Spine Phila Pa 1976. 2014;39(1):3-16. doi:10.1097/BRS.0000000000000088. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3921966/

  4. Bailey CS, Rasoulinejad P, Taylor D, et al. Surgery versus conservative care for persistent sciatica lasting 4 to 12 months. N Engl J Med. 2020;382(12):1093-1102. doi:10.1056/NEJMoa1912658. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1912658

  5. Gardner A, Gardner E, Morley T. Cauda equina syndrome: a review of the current clinical and medico-legal position. Eur Spine J. 2011;20(5):690-697. doi:10.1007/s00586-010-1668-3. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00586-010-1668-3

Dr. Normando Guedes — CRM-GO 31728 · RQE 17078. Conteúdo educativo; não substitui consulta médica.

 
 
 

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