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Dor Glútea Profunda: quando a "ciática" não vem da coluna

A dor glútea profunda pode imitar perfeitamente uma ciática de hérnia de disco, mas ter origem completamente diferente: o aprisionamento do nervo isquiático dentro da nádega, fora da coluna vertebral. Essa condição — chamada síndrome do glúteo profundo — é subdiagnosticada e faz muitos pacientes tratarem a coluna por anos sem melhora.

Por Dr. Normando Guedes — Neurocirurgião, especialista em coluna e dor crônica — CRM-GO 31728 — RQE 17078

O que é a síndrome do glúteo profundo

Trata-se do aprisionamento do nervo isquiático — o nervo que desce da nádega pela parte de trás da perna — em estruturas do espaço subglúteo, a região profunda dentro da nádega, sem qualquer envolvimento da coluna. [1]

O termo não discogênico indica que o disco intervertebral não está comprimindo o nervo. O problema se encontra mais abaixo, dentro da própria nádega.

Os sintomas mais comuns são:

  • Dor profunda na nádega ou no quadril

  • Formigamento ou sensação alterada (parestesia) na face posterior da coxa

  • Dor que irradia como uma ciática, descendo pela parte de trás da perna

  • Piora importante ao sentar por períodos prolongados

Por que é confundida com ciática de hérnia de disco

Os sintomas se sobrepõem quase completamente. Dor descendo pela perna, formigamento, sensação de choque — tudo isso pode vir tanto de uma hérnia de disco na coluna quanto de um nervo aprisionado dentro da nádega. [1]

O subdiagnóstico é frequente. Estima-se que a síndrome do piriforme — uma das formas de dor glútea profunda — responda por 0,3% a 6% dos casos de dor lombar e ciática, sendo frequentemente não identificada. [2]

Vale saber que hérnia de disco e síndrome do glúteo profundo podem coexistir no mesmo paciente. Encontrar uma hérnia na ressonância não descarta o problema na nádega. [1]

Não é só o músculo piriforme

Por muito tempo, esse quadro foi chamado apenas de "síndrome do piriforme". Hoje se sabe que várias estruturas dentro do espaço subglúteo podem comprimir o nervo isquiático. [1]

As causas mais reconhecidas incluem:

  • Bandas fibrovasculares — achado mais frequente nas séries cirúrgicas [3][4]

  • Músculo piriforme

  • Músculo obturador interno e gêmeos

  • Impacto isquiofemoral — compressão do músculo quadrado femoral entre dois ossos do quadril [5]

  • Condições dos isquiotibiais e alterações glúteas [1]

Causas menos comuns também existem: traumas, complicações de cirurgias anteriores, inflamações, infecções, alterações vasculares, causas ginecológicas e tumores. [1]

Como se investiga

O diagnóstico é principalmente clínico. O médico avalia os sintomas, o histórico e realiza testes físicos específicos. [1]

Testes clínicos com utilidade descrita na literatura incluem: [3]

  • Parestesia (formigamento) ao exame físico

  • Teste do piriforme sentado — dor ao sentar com rotação interna do quadril

  • FADIR — movimento de flexão, adução e rotação interna do quadril

  • Dor à palpação da incisura isquiática (região profunda da nádega)

A ressonância magnética é o método de imagem de escolha para avaliar o espaço subglúteo. Técnicas avançadas chamadas neurografia por RM permitem visualizar o próprio nervo isquiático e as estruturas ao redor. [1]

A infiltração anestésica na região do nervo tem dupla função: alívio significativo após a injeção ajuda a confirmar que o problema está ali — e o procedimento já carrega efeito terapêutico. [1]

Como se trata: do menos para o mais invasivo

O tratamento começa sempre pelas medidas conservadoras. A cirurgia entra em cena apenas quando essas medidas, bem conduzidas, não trazem alívio suficiente.

Tratamento conservador — primeira linha

As opções incluem fisioterapia e reabilitação dirigida ao espaço subglúteo, infiltração com corticoide, toxina botulínica (que relaxa o músculo compressor) e agulhamento seco. [2]

A evidência para cada uma dessas modalidades vem de estudos com amostras pequenas e metodologias variadas. A indicação é sempre individualizada.

Descompressão endoscópica — quando o conservador não é suficiente

Quando o tratamento conservador bem conduzido falha e o impacto na vida diária é importante, a descompressão endoscópica do nervo isquiático pode ser considerada. A literatura atual descreve resultados favoráveis com a via endoscópica em comparação à cirurgia aberta, com menor morbidade. [2]

A expectativa precisa ser calibrada: os dados disponíveis vêm de séries de casos retrospectivas em pacientes cuidadosamente selecionados — não de ensaios clínicos controlados.

Em uma série de 60 pacientes selecionados com seguimento médio de 2 anos, a dor média reduziu de 7,4 para 2,6 em escala de 0 a 10 — resultado de grupo, não garantia individual. [3]

Em outra série de 41 pacientes, o escore funcional WOMAC melhorou de 63 para 26 pontos; 4 casos (cerca de 10%) necessitaram revisão cirúrgica em 6 meses. [4]

O resultado individual varia. A indicação depende de avaliação criteriosa caso a caso. O objetivo do tratamento é aliviar a dor e recuperar a função — cada situação é única.

Quando buscar avaliação

Vale considerar uma avaliação especializada se você apresenta:

  • Dor glútea profunda que persiste apesar de tratamento para a coluna

  • Dor que piora ao sentar por períodos prolongados

  • Formigamento ou dor irradiando para a face posterior da coxa

  • Dor que não se explica pelos achados da coluna na imagem

Sinais de alerta que exigem avaliação imediata: perda de força progressiva na perna, perda de controle de urina ou fezes, dormência em sela (região íntima e parte interna das coxas) ou febre associada à dor. Esses sinais podem indicar condições graves que precisam de atenção urgente.

Perguntas frequentes

Dor no glúteo pode ser confundida com hérnia de disco?

Sim. A síndrome do glúteo profundo produz dor e formigamento que descem pela parte de trás da perna, exatamente como uma ciática de hérnia de disco. A diferença é que a origem não está na coluna, mas no aprisionamento do nervo dentro da nádega. As duas condições também podem coexistir no mesmo paciente.

A piora ao sentar é uma característica marcante da síndrome do glúteo profundo, porque a posição sentada aumenta a pressão sobre o nervo isquiático no espaço subglúteo. As causas mais comuns incluem bandas fibrovasculares, músculo piriforme alterado, obturador interno e impacto isquiofemoral — estruturas que comprimem o nervo dentro da nádega.

O diagnóstico é principalmente clínico, feito com base nos sintomas e em testes físicos específicos. A ressonância magnética é o método de imagem de escolha para avaliar o espaço subglúteo; técnicas de neurografia por RM permitem visualizar o nervo diretamente. A infiltração anestésica também tem valor diagnóstico: o alívio após a injeção ajuda a confirmar onde está o problema.

Na maioria dos casos, não. O tratamento começa com fisioterapia dirigida, infiltrações e outras medidas conservadoras. A descompressão endoscópica do nervo isquiático é considerada apenas quando o tratamento conservador bem conduzido não traz alívio suficiente e há impacto importante na vida diária. A indicação é sempre individualizada e depende de avaliação criteriosa.

Referências

  1. Hernando MF, Cerezal L, Perez-Carro L, Abascal F, Canga A. Deep gluteal syndrome: anatomy, imaging, and management of sciatic nerve entrapments in the subgluteal space. Skeletal Radiol. 2015;44(7):919-934. https://doi.org/10.1007/s00256-015-2124-6

  2. Vij N, Kiernan H, Bisht R, Singleton I, Cornett EM, Kaye AD, et al. Surgical and Non-surgical Treatment Options for Piriformis Syndrome: A Literature Review. Anesth Pain Med. 2021;11(1):e112825. https://doi.org/10.5812/aapm.112825

  3. Park MS, Yoon SJ, Jung SY, Kim SH. Clinical results of endoscopic sciatic nerve decompression for deep gluteal syndrome: mean 2-year follow-up. BMC Musculoskelet Disord. 2016;17:218. https://doi.org/10.1186/s12891-016-1062-3

  4. Aguilera-Bohorquez B, Cardozo O, Brugiatti M, Cantor E, Valdivia N. Endoscopic treatment of sciatic nerve entrapment in deep gluteal syndrome: Clinical results. Rev Esp Cir Ortop Traumatol. 2018;62(5):322-327. https://doi.org/10.1016/j.recot.2018.03.004

  5. Nakano N, Yip G, Khanduja V. Current concepts in the diagnosis and management of extra-articular hip impingement syndromes. Int Orthop. 2017;41(7):1321-1328. https://doi.org/10.1007/s00264-017-3431-4

Dr. Normando Guedes — Neurocirurgião especialista em coluna vertebral e dor crônica — CRM-GO 31728 — RQE 17078 — Goiás. As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem a consulta médica. Cada caso é avaliado individualmente.

 
 
 

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