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Bloqueio do nervo occipital: por que ele não é só um analgésico

Bloqueio do nervo occipital: por que ele não é só um analgésico

O bloqueio do nervo occipital não é uma injeção de anestésico para apagar dor por alguns dias. É um procedimento com anatomia precisa, função diagnóstica e efeito mecânico real sobre o nervo comprimido. Feito no ponto certo, com guia por ultrassom, ele dura. É por isso que eu gosto muito de tratar neuralgia occipital.

Por Dr. Normando Guedes — Neurocirurgião — CRM-GO 31728 — RQE 17078

O trapézio que apareceu no texto anterior aparece aqui de novo — por um motivo diferente

No texto sobre dor cervical facetária, eu falei do trapézio como o músculo que contrai em defesa. O eco muscular de uma dor que vem de outro lugar.

Aqui ele volta. Com outro papel.

Dois dos seis pontos documentados de possível compressão do nervo occipital maior ficam exatamente no trapézio: a entrada do nervo no músculo e a saída pela fáscia, na inserção da linha nucal superior. O mesmo músculo que protege também pode apertar.

Aquela dor que começa no pescoço, sobe pela nuca e às vezes chega até atrás do olho tem nome. É a neuralgia occipital. E é uma condição que eu gosto muito de tratar.

O bloqueio parece simples. É aí que mora a diferença.

Qualquer médico aprende a técnica básica depressa. Palpa a linha nucal, aplica o anestésico, pronto. O procedimento em si não é difícil.

O que é difícil é o raciocínio antes da agulha.

A experiência acumulada em dor ensina muito. E ensina mais ainda nos casos que não melhoram o quanto a gente espera. Neuralgia occipital é uma condição bem desafiadora. O motivo quase sempre é o mesmo: o bloqueio foi feito no ponto errado porque ninguém mapeou onde o nervo estava sendo comprimido. A agulha acertou o alvo errado.

Seis pontos. Um nervo. Uma anatomia que você precisa dominar.

Em dissecção de 25 cabeças cadavéricas, Janis e colaboradores mapearam topograficamente seis pontos maiores de possível compressão ao longo do trajeto do nervo occipital maior. Do mais profundo ao mais superficial:

Seis pontos. O nervo percorre esse trajeto inteiro antes de ficar superficial junto ao crânio. Em qualquer um deles ele pode estar sendo comprimido.

A semiologia minuciosa — pressionar cada ponto, reproduzir a dor, mapear a topografia da dor referida — é o que define onde a agulha vai entrar. Isso não se resolve em dez minutos de palpação apressada.

Por que o ultrassom muda o jogo

Nervos periféricos são estruturas pequenas. Injeções guiadas só por palpação são difíceis de mirar com precisão. Com ultrassom, eu vejo o nervo, vejo o plano perineural, e deposito o anestésico exatamente onde precisa.

Em ensaio clínico randomizado, o bloqueio guiado por ultrassom no nível de C2 reduziu a dor em 4,0 pontos na escala numérica em 30 minutos, contra 2,0 do bloqueio por referência anatômica de superfície. Em quatro semanas, a diferença ficou ainda mais clara: 2,5 versus −0,5.

Mas o ultrassom não é só precisão. É mecanismo.

Quando injeto no plano correto, o volume do anestésico separa mecanicamente o nervo das estruturas que o comprimem. Isso é hidrodissecção. O efeito não é só analgésico — é mecânico, de descompressão real do nervo naquele ponto. É por isso que os bloqueios que eu faço duram mais do que uma semana. Apresento isso como minha prática e minha filosofia, não como consenso universal: o mecanismo é biologicamente sólido em nervos periféricos, e é o que orienta minha conduta.

Chamar isso de paliativo é um erro que custa caro ao paciente

Ouço isso com frequência. "O bloqueio é paliativo." Essa frase anula um conhecimento inteiro sobre dor.

O bloqueio do nervo occipital tem três funções simultâneas:

Paliativo é o que você faz quando não tem mais o que fazer. Isso aqui é outra coisa.

Como é o procedimento, na prática

Paciente sentado ou deitado de lado. Uma picadinha do anestésico local. O ultrassom achando o plano correto do nervo. Injeção. Alívio imediato.

É isso. O procedimento em si é rápido e bem tolerado. O que leva tempo é o mapeamento antes. A conversa, a palpação ponto a ponto, a decisão de onde exatamente a agulha vai entrar.

Por que funciona também na enxaqueca

As dores de cabeça têm uma via em comum: o complexo trigêmino-cervical. As fibras cervicais altas e as fibras do trigêmeo convergem nessa estrutura. Por isso o nervo occipital é, muitas vezes, o caminho mais curto para interromper uma crise.

Em ensaio clínico duplo-cego com 128 pacientes, o bloqueio do occipital foi eficaz no tratamento da crise aguda de enxaqueca versus placebo, e superior ao bloqueio supraorbitário isolado.

Como adjuvante do tratamento preventivo, o resultado é ainda mais expressivo. Associado ao topiramato, o bloqueio reduziu 10,1 dias de enxaqueca por mês, contra 7,3 do topiramato isolado. 71,4% dos pacientes no grupo combinado alcançaram redução de pelo menos 50% dos dias de cefaleia, contra 39% no grupo de monoterapia.

O que eu não faço é usar o bloqueio como preventivo isolado, sem fármaco. A evidência não sustenta isso. Eu não trabalho com o que não sustenta.

Quando a dor melhora e volta

Isso acontece. Quando acontece, é informação. Não é fracasso.

Se a dor cedeu com o bloqueio e voltou em algumas semanas, eu sei duas coisas: o gerador está naquele trajeto, e ele pode ser desativado por ali. A partir daí, avalio o sítio de compressão, a resposta ao procedimento e as próximas opções.

Uma delas é a rizotomia — que vou abordar tecnicamente no próximo texto.

Perguntas frequentes

O bloqueio do nervo occipital dói?

Uma picadinha do anestésico local, e pronto. A maior parte dos pacientes tolera muito bem. O desconforto é mínimo e dura segundos.

Quantas sessões são necessárias?

Depende da causa e da resposta de cada paciente — isso é assunto de consultório, não de protocolo fixo. O que posso dizer é que o objetivo não é repetir indefinidamente: é desativar o gerador e, se necessário, escalar para a próxima opção.

O bloqueio funciona para qualquer dor de cabeça?

Não. Ele tem indicações precisas: neuralgia occipital, crise aguda de enxaqueca e, como adjuvante, o tratamento preventivo da enxaqueca crônica. A semiologia define quem se beneficia.

Por que usar ultrassom se dá para fazer pela palpação?

Nervos periféricos são pequenos e o plano perineural correto não é visível a olho nu. O ultrassom permite depositar o anestésico exatamente onde precisa — e é isso que faz o efeito durar.

Referências

  1. Janis JE, Hatef DA, Ducic I, Reece EM, Hamawy AH, Becker S, Guyuron B. The anatomy of the greater occipital nerve: Part II. Compression point topography. Plast Reconstr Surg. 2010;126(5):1563-72. doi:10.1097/PRS.0b013e3181ef7f0c
  2. Kissoon NR, O'Brien TG, Bendel MA, et al. Comparative Effectiveness of Landmark-guided Greater Occipital Nerve Block at the Superior Nuchal Line Versus Ultrasound-guided GON Block at the Level of C2: A Randomized Clinical Trial. Clin J Pain. 2022;38(4):271-278. doi:10.1097/AJP.0000000000001023
  3. Hokenek NM, Ozer D, Yilmaz E, et al. Comparison of greater occipital nerve and supra orbital nerve blocks methods in the treatment of acute migraine attack: A randomized double-blind controlled trial. Clin Neurol Neurosurg. 2021;207:106821. doi:10.1016/j.clineuro.2021.106821
  4. Chowdhury D, Mundra A, Datta D, Duggal A, Krishnan A, Koul A. Efficacy and tolerability of combination treatment of topiramate and greater occipital nerve block versus topiramate monotherapy for the preventive treatment of chronic migraine: A randomized controlled trial. Cephalalgia. 2022;42(9):859-871. doi:10.1177/03331024221082077
  5. Chang KV, Wu WT, Ozcakar L. Ultrasound imaging and guidance in peripheral nerve entrapment: hydrodissection highlighted. Pain Manag. 2020;10(2):97-106. doi:10.2217/pmt-2019-0056

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