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Mielopatia Cervical

A mielopatia cervical é a condição da coluna que mais me faz insistir para o paciente não adiar a consulta. Ela costuma ser silenciosa no que as pessoas esperam de um problema de coluna — muita gente com mielopatia tem pouca dor no pescoço — e barulhenta naquilo que ninguém associa à coluna: a letra que piorou, a chave que não gira, o esbarrão na parede ao andar. É por isso que o diagnóstico frequentemente demora.

O que é mielopatia cervical

Dentro do canal da coluna cervical passa a medula espinhal, que é o grande cabo por onde trafegam os sinais entre o cérebro e o resto do corpo. Com o envelhecimento da coluna — discos que perdem altura, articulações que crescem, ligamentos que engrossam — esse canal pode ir estreitando. Quando o estreitamento passa a comprimir a medula e produzir sintomas, chamamos de mielopatia. Ela pode ter também outras causas, como hérnias volumosas, calcificação de ligamento, deformidades ou instabilidade.

Por que muitas vezes não dói

A medula comprimida não gera necessariamente dor, porque o problema não está numa raiz que carrega a sensação de uma região específica: está no cabo principal. Por isso o sintoma dominante costuma ser perda de função, e não dor. Pode haver dor cervical associada, ou dor irradiada quando existe também uma hérnia de disco cervical comprimindo raiz. Mas contar apenas com a dor para procurar ajuda é um erro perigoso nessa doença.

Sinais que merecem atenção

Quedas, quadros que pioram rapidamente ou perda de controle esfincteriano pedem avaliação imediata. Nesses casos, um trauma leve no pescoço pode ter consequências desproporcionais.

Como se investiga

O exame neurológico é a peça central: reflexos vivos demais, sinais específicos de comprometimento medular, alterações de marcha e de coordenação. A ressonância magnética mostra o grau de estreitamento e se já existe sofrimento do tecido medular. Radiografias dinâmicas avaliam alinhamento e mobilidade. Em situações duvidosas, exames complementares ajudam a separar mielopatia de outras causas neurológicas, e nesses casos a avaliação conjunta com o neurologista é bem-vinda.

Por que eu discordo de "esperar o paciente ter déficit"

Aqui está o ponto em que eu abro mão da minha própria tendência conservadora. Em hérnia com dor aguda sem urgência, eu seguro a cirurgia com convicção, porque a história natural é favorável. Na mielopatia, não. É uma doença tipicamente progressiva, e a literatura atual não apoia a conduta de apenas observar quando já há sintomas e compressão significativa. Pior: a função que se perde nem sempre volta depois. Descomprimir uma medula que já sofreu por muito tempo devolve menos do que descomprimir a tempo. Por isso considero equivocada a orientação de "esperar aparecer déficit para operar". Ser conservador é uma virtude quando o tempo trabalha a favor do paciente; deixa de ser quando o tempo trabalha contra.

Como se trata

Em casos muito leves, sem sinais claros de sofrimento medular, é razoável acompanhar de perto, com reavaliação clínica programada e orientação sobre risco de trauma. Fisioterapia e controle da dor têm papel de suporte, mas não desfazem a compressão. Quando há mielopatia estabelecida, o tratamento é cirúrgico: descomprimir a medula e, quando necessário, estabilizar o segmento. A via de acesso — anterior ou posterior — depende de onde está a compressão, de quantos níveis estão envolvidos e do alinhamento da coluna. O objetivo principal da cirurgia é interromper a progressão e preservar função; a melhora dos sintomas acontece em parte dos casos e varia conforme o tempo de doença.

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