Dor Facetária
Tem um padrão que eu escuto quase toda semana no consultório: dói mais em pé, piora quando a pessoa se inclina para trás, incomoda ao levantar da cadeira ou ao virar na cama, e melhora um pouco sentado ou inclinado para frente. Quando esse desenho aparece, uma das hipóteses é a dor facetária. É uma causa comum de dor nas costas, frequentemente esquecida, e vale explicar direito o que é.
O que são as facetas e por que elas dóem
Entre duas vértebras existe o disco na frente e, atrás, um par de pequenas articulações chamadas facetárias. Elas guiam e limitam o movimento da coluna. Como toda articulação do corpo, têm cartilagem, cápsula e ramos nervosos próprios, os ramos mediais, que levam a informação de dor. Com sobrecarga, artrose ou alteração de mecânica, essa articulação pode se tornar uma fonte persistente de dor, tanto na lombar quanto na cervical.
Como essa dor costuma se apresentar
- Dor mais concentrada nas costas do que na perna, ou seja, com cara de dor axial.
- Piora com extensão e rotação da coluna, e com o tempo em pé parado.
- Rigidez ao acordar e ao levantar depois de ficar muito tempo sentado.
- Quando irradia, costuma parar na região glútea ou na coxa, sem o trajeto elétrico típico do ciático.
Por que o exame não fecha o diagnóstico
Aqui a frase vale mais do que nunca: dor não aparece em exame. Artrose facetária é achado quase universal em ressonâncias de adultos, incluindo pessoas que não sentem absolutamente nada. Ver faceta degenerada no laudo não prova que a dor vem dali, e faceta de aparência razoável não descarta. O diagnóstico é clínico, construído na história e no exame físico, e confirmado quando o bloqueio diagnóstico dos ramos mediais reproduz alívio consistente. Eu trato a pessoa, não o laudo.
Por que ela persiste
Uma articulação dolorida faz você evitar movimento. Evitar movimento enfraquece a musculatura que deveria dividir a carga, e aí a faceta recebe ainda mais sobrecarga. Ao mesmo tempo, o sistema nervoso vai se sensibilizando: o alarme, que deveria tocar só diante de perigo real, começa a tocar em movimentos comuns. Some a isso sono ruim e hipervigilância e você tem o ciclo vicioso completo, com um componente mecânico e outro de aprendizado do sistema nervoso.
O que vem antes do procedimento
A base do tratamento não é a agulha. É exercício de força bem orientado, ganho de tolerância à extensão e à carga, sono tratado, educação em dor e uso de medicação com propósito definido. Muita gente melhora bem com isso, sem precisar de mais nada.
Radiofrequência: o que ela é e o que ela não é
Quando a dor facetária está bem caracterizada e responde ao bloqueio diagnóstico, a radiofrequência dos ramos mediais é uma opção consistente na literatura. Ela atua sobre os nervos que levam a dor daquela articulação e pode dar meses de alívio. Mas ela não rejuvenesce a articulação nem substitui a reabilitação. Eu costumo dizer que tirar a dor é a parte relativamente fácil; difícil é fazer o efeito durar. Por isso a janela de alívio precisa ser usada para treinar, se mover e recuperar confiança no corpo. Procedimento é um degrau, e o degrau só serve se você subir nele.
Veja também
- Dor Axial doenças
- Dor Lombar doenças
- Radiofrequência tratamentos
- Bloqueios Guiados por Ultrassom tratamentos
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