Radiofrequência
Radiofrequência é um procedimento que eu gosto de explicar com calma, porque ele costuma ser vendido como solução e ele não é solução: é uma ferramenta útil, com alvo estreito e prazo. Quando bem indicada, ela compra tempo e função. Quando indicada no chute, ela frustra o paciente e ainda queima a confiança dele em tratamentos que poderiam ajudar depois.
O que é
É a aplicação de energia por uma agulha especial, posicionada com precisão junto a um pequeno nervo sensitivo, com o objetivo de interromper a condução do sinal doloroso daquele ponto. Existem variações de técnica, com ajustes de temperatura e de modo de aplicação, escolhidas conforme o alvo e o tipo de dor. O efeito não é permanente, porque o nervo tende a se recuperar com o tempo.
Como funciona
Volto à analogia do fio. Cada articulação da coluna tem ramos nervosos finos que levam a informação de dor daquela estrutura para a medula. Se conseguirmos identificar com segurança que a dor de uma pessoa vem daquela articulação, é possível agir sobre esses ramos específicos e reduzir o tráfego de sinal. Repare no condicional: tudo depende de ter identificado o alvo antes.
Por que o bloqueio diagnóstico vem antes
Eu não indico radiofrequência sem que um bloqueio diagnóstico tenha apontado o alvo. Imagem sozinha não basta: quase todo mundo acima de certa idade tem desgaste facetário no exame, e a maioria dessas pessoas não sente dor por causa disso. Degeneração é como ruga e cabelo branco. O que define a conduta é a história clínica, o exame físico e a resposta ao teste. Sem isso, estaríamos tratando um laudo, e eu trato a pessoa.
Para quem costuma ser indicada
- Dor facetária lombar ou cervical confirmada por bloqueio.
- Dor sacroilíaca em casos selecionados.
- Pacientes com dor cervical ou lombar persistente que responderam bem ao bloqueio, mas por tempo curto demais para sustentar a reabilitação.
- Pessoas com risco cirúrgico elevado, em que reduzir dor sem grande porte é especialmente valioso.
Para quem não é indicada
Não indico quando não houve resposta ao bloqueio diagnóstico, quando existe compressão de raiz que pede descompressão, quando há instabilidade que explica o quadro, em infecção ativa, em distúrbio de coagulação não compensado, e em portadores de dispositivos eletrônicos implantados sem avaliação prévia específica. Também não indico como primeira medida em quem nunca fez tratamento conservador organizado. Fazer radiofrequência em quem não se move, não dorme e não entende a própria dor é entregar um alívio que não terá onde se apoiar.
Como é na prática e o que esperar depois
É um procedimento realizado com o paciente monitorizado, com guia de imagem, geralmente sem necessidade de internação prolongada. Pode haver dor local por alguns dias após a aplicação, o que é esperado e não significa insucesso. O alívio costuma se estabelecer de forma gradual, não imediata.
Sobre duração, sou honesto: o efeito é temporário e o tempo varia bastante de pessoa para pessoa. O nervo se refaz. Por isso a radiofrequência só cumpre seu papel se a janela de alívio for usada para construir outra coisa, com exercício, sono e educação em dor. Procedimento é um degrau, não o destino.
Veja também
- Dor Facetária doenças
- Bloqueios Guiados por Ultrassom tratamentos
- Dor Sacroilíaca doenças
- Dor Lombar doenças
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