Cuidado Multidisciplinar
Existe uma frase que eu repito para pacientes e para colegas: ninguém alivia a dor sozinho. Nem o neurocirurgião, nem o fisioterapeuta, nem o psicólogo. Dor crônica é um problema com várias entradas ao mesmo tempo, e problema com várias entradas não se resolve por uma porta só. Cuidado multidisciplinar não é luxo nem modismo. É a forma adequada de tratar.
O que é
É um plano único, com objetivos combinados, executado por profissionais diferentes que sabem o que o outro está fazendo. Isso é distinto de encaminhar o paciente para vários especialistas isolados e esperar que ele mesmo junte as peças. Encaminhamento disperso costuma gerar orientações contraditórias, e o paciente fica no meio, sem saber em quem acreditar.
Por que a dor exige mais de uma abordagem
Quando a dor persiste, ela deixa de ser apenas um sinal de tecido lesionado. Ela passa a envolver o sistema nervoso sensibilizado, a perda de condicionamento, o sono desorganizado, o medo de movimento, o humor, o trabalho, a vida social. Tratar só a estrutura e ignorar o resto é resolver um quinto do problema e se surpreender quando o resultado não dura.
Quem costuma compor o time
- Fisioterapeuta. Conduz a reabilitação, dosa carga, corrige padrões de movimento e é quem acompanha o paciente com mais frequência ao longo do processo.
- Educador físico. Sustenta o exercício no longo prazo, depois da alta da fisioterapia. Essa transição é onde muitos tratamentos se perdem.
- Psicólogo. Trabalha medo de movimento, hipervigilância, catastrofização e as estratégias de enfrentamento. Nada disso significa que a dor seja inventada.
- Psiquiatra. Entra quando ansiedade, depressão ou insônia grave estão alimentando o quadro e precisam de tratamento próprio.
- Geriatra. Fundamental no paciente idoso, para revisar polifarmácia, risco de queda e condições clínicas que mudam a conduta.
- Médico da dor e neurocirurgião. Definem diagnóstico, indicam ou desindicam procedimentos e conduzem o tratamento medicamentoso.
Como o plano se organiza na prática
Começa por um diagnóstico bem feito, que separa o que é compressão de raiz, o que é dor de estrutura articular e o que é sistema sensibilizado. Sem essa separação, cada profissional trata a hipótese que mais lhe agrada. A partir daí definimos objetivos concretos e verificáveis, com prazos, e revisamos com o paciente o que está funcionando e o que precisa mudar. Procedimentos, quando entram, entram como degrau: uma janela de alívio para permitir que a reabilitação avance. Procedimento é um degrau, não o destino.
O papel do paciente
O paciente é o principal integrante desse time, e essa não é uma frase bonita. Ele é quem executa o exercício, ajusta o sono, toma a medicação como combinado e leva a informação de um profissional ao outro. Por isso a educação em dor vem antes de tudo: quem entende o próprio quadro colabora melhor e desiste menos. Tirar a dor é relativamente fácil; difícil é fazer o efeito durar se cada um puxar para um lado.
O que esperar
Espere um processo com etapas, revisões e ajustes, não uma solução única. O caminho em dor crônica raramente é linear, e prometer o contrário seria desonesto. Quando te oferecem solução fácil para um problema crônico, complexo e multifatorial, desconfie. O que a organização do cuidado oferece é algo mais concreto: cada parte do problema sendo tratada por quem sabe tratá-la, na mesma direção.
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