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Neuromodulação

Existe uma frase que eu repito no consultório: dor é um sistema de alarme, e dor crônica é um alarme que toca por tudo. Um alarme que toca por tudo não serve para nada. A neuromodulação nasce dessa ideia. Ela não conserta o disco, não retira a hérnia e não desfaz a cicatriz. Ela interfere no sinal que trafega pelo fio, tentando devolver ao alarme algum critério.

O que é

Neuromodulação é o uso de estímulo elétrico aplicado de forma controlada sobre estruturas do sistema nervoso, para modificar a forma como o sinal doloroso é conduzido e processado. Pode ser feita com eletrodos posicionados no espaço epidural, junto a um nervo periférico ou junto ao gânglio da raiz dorsal, conectados a um gerador. É reversível e ajustável, e essa é uma característica importante: nada é destruído de forma definitiva.

Como funciona

Quando a dor persiste por muito tempo, o sistema nervoso aprende a doer. Os sensores ficam mais sensíveis, a medula amplifica, o cérebro passa a interpretar como ameaça o que antes era inofensivo. É a sensibilização. A corrente elétrica entregue de forma programada compete com esse tráfego e modifica o padrão de disparo. Não é anestesia, não é bloqueio químico e não é sugestão. É intervenção sobre um sistema que está funcionando mal.

Para quem costuma ser indicada

Para quem não é indicada

Não indico quando existe uma compressão ativa que deveria ser tratada primeiro. Neuromodulação não é substituto de cirurgia necessária. Também não indico quando há infecção ativa, quando o quadro psíquico está descompensado a ponto de inviabilizar o acompanhamento, quando existe dependência de opioide não trabalhada, ou quando o paciente não tem condição de manter seguimento regular, porque o sistema exige programação e ajuste ao longo do tempo. E não indico para quem espera que o aparelho faça sozinho o que ele mesmo precisa fazer. Quem não caminha, não dorme e não trata o que está em volta tende a não sustentar o resultado.

Como é na prática

A parte mais honesta dessa técnica é que existe um teste antes da decisão definitiva. Posiciona-se o eletrodo e o paciente experimenta o estímulo por um período, na vida real dele, com as atividades dele. Só quem responde bem ao teste segue para o implante do gerador. É raro em medicina poder experimentar antes de decidir, e eu considero isso uma vantagem grande: reduz a chance de submeter alguém a um implante que não iria ajudar.

O que esperar depois

O objetivo realista é reduzir a intensidade da dor a ponto de destravar função: caminhar mais, dormir melhor, depender de menos medicação. Não é apagar a dor, e eu não trabalho com essa promessa. A programação costuma precisar de ajustes, a bateria tem vida útil e o dispositivo tem cuidados próprios. Continua valendo o princípio geral: procedimento é um degrau, não o destino. O que sustenta o ganho é o que se constrói em volta dele.

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