Dor Neuropática
Quando alguém me diz que "não é bem uma dor", que é choque, queimação, formigamento ou agulhada, eu mudo o rumo da consulta. Esses descritores não aparecem por acaso. Eles costumam apontar para dor neuropática, que é a dor nascida do próprio sistema que deveria só transmitir informação. Vou simplificar, porque rigor importa mais que a forma: o nervo é como se fosse um fio. Fio íntegro leva o sinal. Fio danificado passa a gerar sinal sozinho, e o cérebro interpreta esse ruído como dor.
O que é dor neuropática
É a dor causada por lesão ou doença do sistema que conduz a sensibilidade: nervos periféricos, raízes, medula ou o próprio cérebro. Ela é diferente da dor que vem de um tecido machucado. Numa entorse, o sensor está funcionando e avisando corretamente que algo dói. Na dor neuropática, o problema está no sensor e na fiação. É por isso que ela costuma responder mal a analgésico comum e a anti-inflamatório: não há muito o que desinflamar, há um circuito disparando alarme falso.
Como o paciente descreve
A linguagem é bastante característica, e eu presto muita atenção nela.
- Choque, fisgada, agulhada que vem em disparos curtos.
- Queimação contínua, como se a pele estivesse ardendo por dentro.
- Formigamento, dormência ou sensação de peso e frio no membro.
- Dor provocada por algo que não deveria doer, como o roçar do lençol ou a água do banho.
- Dor que segue um trajeto, descendo pela perna ou pelo braço, em vez de ficar num ponto só.
Quando a dor irradia por um trajeto de nervo, ela costuma ter uma origem identificável, e é aí que entram quadros como a hérnia de disco lombar comprimindo uma raiz.
O que costuma ser confundido com isso
Dor muscular e dor neuropática convivem com frequência, e nem sempre é óbvio quem é o protagonista. Contratura, dor miofascial e dor articular podem doer forte e irradiar um pouco, mas raramente produzem choque, queimação e alteração de sensibilidade juntos. O contrário também acontece: pessoas com dor neuropática antiga são rotuladas como "dor emocional" simplesmente porque o exame de imagem veio limpo. Dor não aparece em exame. Eu trato a pessoa, não trato o laudo.
Como se investiga
O diagnóstico começa e quase sempre se resolve na conversa e no exame físico. Eu quero saber onde dói, para onde a dor vai, o que a piora, como ela começou e o que mudou na sensibilidade da região. No exame, testo tato, temperatura, força e reflexos, e procuro áreas onde a sensibilidade está aumentada, reduzida ou invertida. Exames de imagem e testes elétricos entram para responder perguntas específicas, não para "procurar alguma coisa". Achado de exame não faz diagnóstico. Achado de exame confirma, ou não, uma hipótese que já foi construída antes.
O que funciona no tratamento
A base é diferente da dor comum. Medicações que agem sobre a excitabilidade do nervo e sobre as vias descendentes de controle da dor costumam funcionar melhor do que analgésico simples, e precisam de tempo e ajuste de dose para mostrar efeito. Junto disso entram reabilitação com exposição gradual ao movimento, sono e educação em dor. Isso não é enfeite: quando o paciente entende por que o alarme está tocando, ele para de reagir a cada disparo com medo, e o sistema desliga um degrau. Tirar a dor pontualmente é relativamente fácil. Difícil é fazer o efeito durar sem que o paciente faça a parte dele.
Quando o procedimento entra
Procedimento é degrau, não destino. Um bloqueio bem indicado e bem posicionado tem função diagnóstica além da analgésica: ele testa uma hipótese sobre qual estrutura está gerando a dor, e essa informação orienta o passo seguinte. Quando a dor neuropática é persistente, incapacitante e resistente ao tratamento clínico bem feito, a neuromodulação passa a ser uma alternativa a discutir. E quando existe uma compressão clara com correlação clínica, a cirurgia deixa de ser último recurso e passa a ser a decisão mais lógica.
Veja também
- Dor Associada a Polineuropatia doenças
- Neuralgia do Trigêmeo doenças
- Neuromodulação tratamentos
- Dor Crônica especialidades
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