Enxaqueca
Enxaqueca não é dor de cabeça forte. É uma doença neurológica, com crises que envolvem muito mais do que dor: náusea, incômodo com luz e som, cansaço no dia seguinte, dificuldade de raciocinar. Quem convive com ela sabe que a crise começa antes de doer e termina depois que a dor passa. E quem convive com ela também costuma ter ouvido que precisa "aprender a conviver". Discordo. Sentir dor recorrente ao ponto de perder dias de vida nunca é normal.
O que acontece na crise
Simplificando: o cérebro de quem tem enxaqueca tem um limiar mais baixo para disparar um alarme. Diante de alterações de sono, jejum, estresse, variação hormonal ou mudança de rotina, um circuito que envolve o trigêmeo e os vasos cranianos entra em atividade e sustenta a dor. Não é fraqueza, não é frescura e não é falta de controle emocional. É um sistema com limiar rebaixado, e limiar é algo que se pode trabalhar.
Como o paciente descreve
- Dor latejante, geralmente de um lado, que piora com esforço e movimento.
- Náusea ou vômito durante a crise.
- Necessidade de escuro e silêncio.
- Aura em parte dos casos: pontos luminosos, campo visual falhando, formigamento antes da dor.
- Crises que duram horas ou dias e deixam a pessoa "de ressaca" depois.
O que costuma ser confundido com isso
Aqui está a parte em que eu costumo ser insistente: nem toda dor de cabeça é enxaqueca. Esse rótulo é aplicado com uma generosidade que atrapalha o paciente. Muita neuralgia occipital é tratada por anos como enxaqueca sem sucesso, porque a dor sobe da nuca e chega ao olho. Dores de origem cervical, quadros de dor cervical com componente muscular e outras dores de cabeça primárias entram no mesmo balaio. E existe o caminho inverso: pessoas com enxaqueca legítima recebendo tratamento de coluna que não vai resolver. O nome certo muda o tratamento.
Como se investiga
O diagnóstico é clínico e se baseia em critérios bem estabelecidos: padrão das crises, duração, sintomas associados, resposta prévia a medicações. Exame de imagem não diagnostica enxaqueca. Ele é solicitado quando há sinais de alerta, mudança de padrão, dor que se instala de forma abrupta, alteração no exame neurológico ou início tardio. Fora dessas situações, pedir mais exames costuma gerar achados incidentais que assustam e não ajudam.
O que funciona no tratamento
Existem duas frentes, e confundir as duas é um erro comum. A primeira é o tratamento da crise, feito para abortar o episódio o mais cedo possível. A segunda é o tratamento preventivo, feito todos os dias, com o objetivo de reduzir frequência e intensidade ao longo de meses. Preventivo não age na hora, e abandoná-lo na terceira semana por "não estar funcionando" é a razão mais frequente de fracasso. Junto disso há um trabalho que ninguém pode fazer pelo paciente: regularidade de sono, exercício, hidratação, alimentação sem grandes jejuns e identificação dos próprios gatilhos. Sono e exercício são subestimados, e não deveriam ser.
Um alerta que faço sempre
O uso frequente de analgésicos para cortar crise pode transformar uma enxaqueca episódica em dor quase diária. É um ciclo vicioso clássico e um dos motivos mais comuns de piora progressiva. Se você toma remédio para dor de cabeça vários dias por semana, isso precisa ser discutido, e não escondido do médico.
Quando procedimento entra
Na maior parte dos casos, enxaqueca é tratada clinicamente, com acompanhamento. Em quadros refratários e frequentes, avaliados caso a caso, existem opções intervencionistas, incluindo bloqueios de nervos cranianos e, em situações selecionadas, neuromodulação. Isso não substitui o tratamento de base, e quem oferecer solução fácil e definitiva para um problema crônico e multifatorial merece desconfiança.
Veja também
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